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Killer Klowns

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Português ou Espanhol?


Eu aprendi música primeiro com o corpo. Antes de qualquer livro, foi na prática crua. Decorava forma de acorde no teclado, copiava riffs no baixo, tentava cantar afinado no banheiro. Minha escola era o ouvido. Eu voltava mil vezes a mesma faixa para sacar a levada do bumbo, a ghost note do surdo, o cromatismo do baixo que fazia a cozinha andar. Por um bom tempo eu achei que teoria era papo de quem não tocava. Até que bateu no teto. Comecei a sentir que improvisava sempre as mesmas ideias, que meus arranjos tinham as mesmas soluções e que eu estava girando em torno dos mesmos vícios. Aí veio a vontade de entender o porquê das coisas. Harmonia, ritmo, forma, timbre. E quando fui atrás de material para estudar, tropecei numa questão que mudou meu caminho: português versus espanhol.

estudando piano

Primeiro fui no que estava ao alcance, em português. Encontrei de tudo. Tem muita aula boa espalhada, principalmente sobre violão popular, harmonia brasileira, ritmos do samba e do baião, percepção melódica, prática de conjunto. O problema é que a oferta é desigual. Você acha pérolas absolutas, mas também muito conteúdo raso, repetitivo, com pouca sequência didática. Muitas vezes a explicação resolve o exemplo daquele dia e não se conecta com uma linha de estudo de semanas e meses. Em contrapartida, quando a conversa é Brasil profundo, aquela malandragem de condução de vozes na bossa, os balanços de samba, a síncope que cai no lugar certo, o material em português brilha. Porque nasce de quem vive isso no palco, no estúdio, na roda.

Depois comecei a fuçar conteúdo em espanhol e levei um susto com o tamanho do universo. México, Argentina, Espanha, Colômbia, Chile e por aí vai. É muita gente ensinando, o que naturalmente gera mais volume. E com volume vem variedade. Encontrei cursos inteiros de teoria do zero ao avançado, cadeias de aulas com exercício, PDF de apoio, trilhas de percepção, arranjo para quatro vozes, orquestração básica, leitura rítmica graduada. Vi muito material bem organizado sobre harmonia moderna e jazz, análise de standards, voicings empilhados, tensões disponíveis, rearmonização funcional. A música afro-latina é fortíssima por lá, então tem salsa, son, timba, bolero, cumbia, tudo com uma disciplina rítmica que te obriga a contar direito e a entender o papel de cada instrumento no conjunto.

Qualidade não é uma palavra que dá para carimbar num idioma inteiro. O que dá para dizer, pela minha vivência de estudo, é que em espanhol eu achei mais trilhas completas e sistemáticas. O aluno entra no módulo 1 sabendo onde pisa, e no módulo 6 enxerga de onde veio e para onde está indo. Em português, quando o assunto é a linguagem brasileira, a qualidade salta aos olhos, mas às vezes falta a estrada sinalizada do começo ao fim. É como se a gente tivesse mestres incríveis em temas específicos, só que nem sempre costurados numa sequência longa. Então meu caminho virou misto. Para consolidar fundamento teórico, processos e rotina de estudo, mergulhei em conteúdo em espanhol. Para som, fraseado, suingue, vocabulário brasileiro e maneira de tocar, fiquei em casa.

Teve um detalhe que me ajudou demais: aprender o dialeto musical entre os idiomas. Português fala sustenido. Espanhol fala sostenido. A mesma nota. Português diz colcheia. Espanhol diz corchea. Semínima vira negra. Mínima vira blanca. Semibreve vira redonda. Compasso é compasso, em espanhol é compás. Ligado vira ligadura. Campo harmônico em português muitas vezes aparece como escala e graus em espanhol, ou se fala de armonía funcional com outro enfoque. E tem a tal da clave. Em espanhol, clave é tanto o símbolo da pauta quanto o padrão rítmico cubano. Se você chegar de paraquedas numa aula de ritmo e o professor disser vamos ver la clave, pode estar falando do desenho 3–2 ou 2–3 que organiza metade do universo caribenho. No começo dá um nó na cabeça, depois vira libertador, porque você passa a traduzir mentalmente e o conteúdo flui. Felizmente encontrei esse site super organizado sobre teoría musical en módulos, para estudar um de cada vez.

Outra diferença que eu senti foi na abordagem do repertório. Em português, muita aula se ancora na canção popular brasileira, o que é sensacional para quem quer ouvir e tocar como a gente fala. Aprendi inversões elegantes de tétrades para acompanhar voz sem brigar com a melodia, uma ciência de baixo caminhado que é puro ouro, fórmulas de levadas que só funcionam se você respeita a acentuação do português cantado. Em espanhol, notei mais foco em standards de jazz, formas tradicionais de música latina e também um recorte pop bem pragmático. Isso me deu ferramentas para entender cadências de um jeito mais geométrico. O eterno dois cinco um virou terreno conhecido em várias tonalidades, aprendi a nomear tensões sem medo, a diferenciar aproximação cromática de nota de bordadura. Quando voltava para a harmonia da MPB, eu tinha mais vocabulário para explicar o que antes era só intuição. Quando voltava para a salsa e o son, eu sabia onde colocar a antecipação e onde era pecado mexer.

Sobre quantidade, o espanhol sai na frente. É gente demais produzindo, em muitos países, com diferentes tradições. Isso puxa plataforma, curso longo, comunidade grande. Em português tem muita coisa, mas o funil é mais estreito. A vantagem de um funil menor é que as referências boas acabam circulando mais entre nós, então fica mais fácil descobrir quem realmente entrega. A desvantagem é que às vezes você quer um caminho completo de leitura, percepção, harmonia, arranjo e produção e tem que catar partes em lugares diferentes.

E não é só aula gravada. Em espanhol eu vi mais material escrito padronizado. Apostilas caprichadas com exercícios em ordem crescente de dificuldade, quadros comparativos, ditados rítmicos e melódicos com gabarito. Em português aparecem cadernos lindos também, principalmente quando o tema é Brasil, mas nem sempre com a mesma constância serial. No fim do dia, o que me fez crescer foi aceitar essa assimetria e usá-la a meu favor.

Se você está começando pelo ouvido como eu comecei, minha sugestão é simples. Mantenha o ouvido no volante. Tire música do jeito antigo, caneta e papel, grave seu instrumento, toque com gente, erre de forma sonora e aprenda com o erro. Quando sentir que precisa entender por trás, abra as duas portas. Em português, procure quem fala a língua dos nossos estilos e que te mostre a levada por dentro. Em espanhol, busque quem organiza o estudo em blocos, quem entrega rotina, meta, revisão. Não precisa dominar o idioma para aproveitar. Aprenda meia dúzia de termos, acostume o olho a ler corchea e negra, e vá. Com três semanas você já está lendo sem tropeço.

Vou dar um exemplo de como isso bateu na minha vida. Eu travava no improviso sobre acordes dominantes alterados. Em português, eu ouvia o professor mostrar som, cantar a tensão que puxava para tal resolução, tocar a frase que pousa macio no acorde seguinte. Pegava a vibe, mas faltava um mapa geral. Cai num curso em espanhol que explicou as coleções de tensões disponíveis, desenhou voicings de quatro e cinco sons, propôs exercícios de arpejos com aproximações cromáticas, e ainda tinha playbacks graduados de 60 a 120. Em duas semanas o bicho começou a assentar. Voltei para as baladas brasileiras e meu fraseado tinha mais caminho para chegar onde eu queria. Ou seja, usei o espanhol para estruturar e o português para dar sotaque e vida.

Tem também a questão do algoritmo. Quando você pesquisa em português, encontra um conjunto de criadores. Quando pesquisa em espanhol, abre outro universo. Palavras chave ajudam muito. Procure teoría musical, armonía funcional, voicings, rearmonización, lectura rítmica, entrenamiento auditivo, arreglos para combo. No nosso idioma, procure harmonia funcional, encadeamento de vozes, percepção, leitura, arranjo para grupo, improvisação modal. A diferença de uma palavra destrava a prateleira inteira.

No fim das contas, português e espanhol não competem no meu estudo. Se complementam. Um me dá identidade, acento, jeito de dizer. O outro me dá estrada, método, escala de produção de material. Hoje eu sigo praticando como antes, ouvindo como antes, mas entendendo bem mais do que está acontecendo por trás. Quando pego o instrumento, a intuição continua mandando, só que agora tem teoria fiando por baixo. E quando abro um livro ou um vídeo, seja em português seja em espanhol, eu sei o que estou procurando. A música agradece, e eu também.

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